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Thainara Faria
Deputada Estadual PT-SP

Todos os dias, menos uma vida

Todos os dias, menos uma vida

Não importa a expressão social, idade, cor ou ainda (pasmem) grau de parentesco: o homem se acha no direito de tirar a vida de uma mulher baseado apenas em suas razões. É como se as regras do mundo normal não existissem, como se não houvesse pressões externas culturais ou sociais que o impedissem de fazer aquilo, como se o crime de tirar a vida pudesse ser sempre justificável. É impressionante o tamanho da vulnerabilidade da mulher no Brasil.

O síndico de um condomínio em Caldas Novas (GO) matou uma corretora de imóveis – e também moradora do local – em razão de atritos relacionados ao trabalho e convivência no condomínio. Ele entendeu que foi desrespeitado, disse expressamente em áudios divulgados em reportagens que não teria condição de seguir com diálogos com a vítima e que não aceitaria ser desrespeitado, dizendo que “tudo tem limite”.

De acordo com reportagens, o síndico perdeu a administração de alguns apartamentos no condomínio que passaram a ser da vítima, o que motivou uma disputa administrativa interna. Além do crime cometido, o síndico está sendo acusado de abuso de poder e perseguição. A vítima havia denunciado formalmente o comportamento do síndico mais de 12 vezes e, após 6 dias ter tido concedido na justiça o direito de administrar algumas unidades e utilizar as áreas comuns do condomínio, teve sua vida tirada por um homem que decidiu por si que seria maior do que a lei.

Disputa administrativa de condomínio e atritos profissionais são motivos para tirar a vida de alguém? O que leva um homem a tomar esta atitude sem nenhum receio de pensar que será legalmente e socialmente julgado por isso? Que direito ele tem sobre este corpo, esta vida e história? Que poder ele tem de ditar a realidade e decidir que aquela pessoa simplesmente não tem mais o direito de viver?

Impressionante como o homem não se amedronta a nada quando se trata de violentar ou tirar a vida de uma mulher.

Justificar o injustificável e agir pelo próprio ego sem medo das consequências mostra o quanto homens ainda sentem-se empoderados em cometer crimes contra mulheres, sem respeitar a lei e, a todo custo, querendo demonstrar a predominância.

Mesmo com o nosso trabalho dentro dos espaços públicos de poder, a criação de leis e fomento de ações e debates, lamentavelmente atitudes covardes como esta ainda seguem fazendo muitas vítimas no Brasil. Competir profissionalmente para uma mulher pode significar perder a vida.